Eventos de 2020 a 2026: os maiores desafios humanos do nosso setor
Da pandemia à retomada, o que mais mudou nos eventos não foi a operação. Foram as pessoas.
Para quem vive de eventos, a diferença entre o antes e o depois de 2020 ficou muito clara, tanto nos eventos em si quanto nas relações entre as pessoas.

Antes de 2020: equipes que se formavam no convívio
Quando começamos a atender eventos com a BlueTie, em 2009, uma coisa sempre foi clara para nós: o que mais importa são as relações humanas. Trabalhar com staff, equipes de limpeza, carregadores, controladores de acesso, bombeiros e tantos outros profissionais sempre exigiu muito mais do que organização. Era preciso construir equipes engajadas, com objetivos em comum, capazes de entender rápido as orientações e atuar em conjunto.
Naquela época também havia problemas de comportamento, pequenos conflitos entre equipes e ruídos de comunicação, como em qualquer empresa. Mas eram bem mais fáceis de resolver.
A nossa gestão de pessoas sempre foi natural. Os dois gestores da BlueTie são psicólogos e, embora isso nunca tenha resolvido tudo, ajudou muito na condução das equipes durante os eventos.
Entre 2009 e 2020, formamos dezenas, talvez mais de uma centena de profissionais com uma visão muito parecida com a nossa. Pessoas que entendiam o valor de dizer bom dia, pedir por favor, agradecer, respeitar os colegas e, acima de tudo, controlar a própria frustração. Afinal, em eventos corporativos convivemos todos os dias com clientes ótimos e com outros mais difíceis. Faz parte de qualquer trabalho com atendimento ao público.
Então chegou 2020
Lembro até hoje de uma quinta-feira de março. Recebemos um telefonema cancelando um evento por causa da pandemia que começava a chegar ao Brasil. Parecia só mais um cancelamento.

Mas, como em um filme de terror, aquele telefonema foi seguido por vários outros. Até o fim do dia, praticamente todos os eventos contratados para um ano que prometia ser excelente tinham sido cancelados.
O clima virou de preocupação. Vieram expressões que muita gente do setor não esquece: “novo normal”, “eventos online”, “eventos híbridos”. Palavras que, naquele momento, soavam como o anúncio do fim de uma atividade que achávamos conhecer tão bem.
Esse período deixou uma cicatriz em quase todo mundo que vive do mercado de eventos. O que por anos parecia uma certeza absoluta virou, da noite para o dia, uma dúvida enorme sobre o futuro.
Durante boa parte de 2020 e ainda em 2021, pouquíssimos eventos aconteceram. Quando aconteciam, eram pequenos, com equipes mínimas, o que só reforçava a sensação de que o nosso mercado talvez nunca mais voltasse a ser o mesmo.
A retomada que, felizmente, veio
Mas a realidade acabou sendo diferente. A partir de 2021, os eventos voltaram a ganhar tração. Foi um crescimento gradual, quase tímido no começo, porém consistente. Em 2022 a recuperação já era clara e, em 2023, sentimos o setor de volta com força: grandes demandas, novos projetos e um volume de eventos muito perto do que existia antes da pandemia.
Por um tempo, tivemos a sensação de que enfim havíamos voltado ao mundo dos eventos que conhecíamos até 2019.
A fênix que eu esperava não voltou assim
Foi aí que percebi que um pensamento que tive durante a pandemia não havia se concretizado. Naquele período, imaginei que tantas dificuldades fariam as pessoas valorizarem ainda mais as relações humanas. Achei que as máscaras, o cuidado constante com a higiene, o distanciamento, as limitações para viajar e até o tempo em casa nos deixariam mais empáticos e mais conscientes da importância do contato com o outro.

Acreditei que o mercado de eventos seria uma espécie de fênix: que renasceria das cinzas ainda mais forte, com equipes mais unidas, pessoas mais dispostas a colaborar e uma alegria renovada em viver os eventos.
Mas a realidade foi diferente. Muita gente que saiu do setor na pandemia, por medo ou necessidade, encontrou outras profissões e não voltou mais. Ao mesmo tempo, muitos jovens chegaram à idade de entrar no mercado justamente nesse período. Passaram anos importantes da vida com pouco convívio presencial, construindo menos relações, na vida pessoal e na profissional.
Isso, naturalmente, mudou comportamentos. Termos que quase não faziam parte do nosso dia a dia, como home office, viraram rotina. As pessoas passaram a conviver menos pessoalmente e muito mais pela internet.
Na minha percepção, isso aprofundou alguns problemas. As redes sociais ganharam ainda mais espaço, o consumo de notícias cresceu e boa parte desse conteúdo passou a girar em torno de medo, conflito, discussão e polarização.
O desafio que não existia antes: o humano
Foi nesse cenário que surgiu um desafio que, sinceramente, não existia para nós antes de 2020. Passamos a encontrar equipes menos engajadas, pessoas mais inclinadas ao conflito do que à solução, profissionais com dificuldade de cumprir horários, assumir compromissos, pedir ajuda, dizer “por favor”, agradecer e, principalmente, se relacionar com naturalidade no ambiente de trabalho.

Não estou dizendo que as pessoas pioraram. Muito pelo contrário. Acredito que muitas se tornaram vítimas de um acontecimento gigantesco, que afetou praticamente o mundo inteiro.
Poderia ter sido diferente? Sinceramente, acho que não. Talvez tenha sido ingenuidade minha imaginar que todos voltariam da pandemia mais fortes nas relações humanas.
Na BlueTie, escolhemos investir nas pessoas
Mas há uma parte dessa história que nos dá muita satisfação. Na BlueTie, em vez de olhar para esses jovens despreparados e simplesmente rotulá-los como gente que não quer trabalhar, decidimos investir neles.

Temos um compromisso grande em ajudar cada profissional a desenvolver uma forma diferente de se relacionar no trabalho. Buscamos relações mais próximas, mais respeitosas e mais humanas. Não necessariamente mais carinhosas, mas certamente mais acolhedoras e mais saudáveis.
É um trabalho difícil. Bem mais difícil do que era antes de 2020. Ainda assim, seguimos colhendo excelentes resultados com as nossas equipes.
Hoje acredito que esse seja um desafio que só empresas realmente comprometidas com seus profissionais vão conseguir enfrentar no médio prazo. Sem dedicação, sem acompanhamento de perto e sem investimento constante nas pessoas, fica muito difícil formar equipes fortes.
As redes sociais continuam entregando conteúdo muitas vezes tóxico. As notícias seguem privilegiando o conflito. As pessoas continuam convivendo menos pessoalmente. Se a empresa não assumir a responsabilidade de reconstruir essas relações dentro do trabalho, dificilmente terá equipes preparadas para resolver problemas. Provavelmente terá equipes que criam novos problemas.
No fim, o desafio é humano
No fim das contas, o maior desafio que surgiu depois de 2020 não foi operacional. Foi humano. E, curiosamente, esse desafio também trouxe um enorme crescimento para nós como empresa. Hoje, parte do nosso trabalho é justamente ajudar pessoas que passaram anos muito próximas umas das outras pelas telas, mas cada vez mais distantes do básico das relações presenciais.
É um desafio enorme. É diferente do que enfrentávamos antes da pandemia. Mas acreditamos estar à altura dele, e seguimos conquistando pessoas, clientes e eventos. E, principalmente, construindo ambientes de trabalho cada vez melhores.
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